Rádio Cachoeiro FM 96.3 Ao Vivo

PUBLICIDADE

Ação do MPF busca suspender programa Tolerância Zero nas praias do Rio

Ação do MPF busca suspender programa Tolerância Zero nas praias do Rio
© Tomaz Silva/Agência Brasil

O Ministério Público Federal (MPF) acionou a Justiça Federal com uma ação civil pública que visa a suspensão imediata dos efeitos do programa Tolerância Zero. Instituído pela Prefeitura do Rio de Janeiro nesta semana, o programa tem como objetivo disciplinar o comércio ambulante nas renomadas praias do Leme, Copacabana, Ipanema e Leblon, localizadas na zona sul da cidade. A iniciativa do MPF surge em meio a um debate complexo entre a necessidade de ordenamento urbano e a proteção dos direitos fundamentais de milhares de trabalhadores que dependem do comércio informal para sua subsistência.

A ação do MPF não apenas questiona a legalidade e a forma de implementação do Tolerância Zero, mas também solicita que a União e o município elaborem um planejamento abrangente para a gestão das praias. Esse plano, segundo o órgão, deve ser capaz de conciliar o ordenamento urbano, o enfrentamento ao crime organizado e, crucialmente, a salvaguarda dos direitos dos trabalhadores ambulantes, buscando uma solução equilibrada e inclusiva para a problemática.

Contexto da Ação: Direitos e Ordenamento Urbano

O procurador regional adjunto dos Direitos do Cidadão, Julio Araujo, argumenta na ação que a prefeitura implementou uma política permanente de fiscalização das praias sem observar as normas federais que disciplinam a gestão desses espaços. Segundo o MPF, o programa foi criado sem o diálogo necessário com a União, que é a titular das praias, e sem a devida participação da sociedade civil.

Além disso, o Ministério Público Federal destaca a ausência de medidas voltadas para os milhares de trabalhadores que dependem do comércio ambulante para sobreviver, o que agrava a situação de vulnerabilidade. O documento ressalta que o município não convocou o Termo de Adesão à Gestão de Praias (TAGP) nem elaborou o Plano de Gestão Integrada previsto no Projeto Orla, ambos considerados essenciais para qualquer intervenção desse porte e impacto.

O MPF reconhece a importância do enfrentamento ao crime organizado e do combate à exploração ilegal do espaço público. No entanto, o órgão argumenta que esses objetivos não podem justificar a adoção de medidas que atinjam indistintamente trabalhadores que exercem atividade lícita e que, há décadas, aguardam políticas públicas que os reconheçam e os incluam no planejamento da cidade. A preocupação é com a generalização de restrições que podem penalizar quem busca apenas o sustento de suas famílias.

O Impacto Social do Comércio Ambulante

Na petição, Julio Araujo sustenta que o programa Tolerância Zero prevê ações amplas de apreensão de mercadorias e restrição ao comércio ambulante sem que o município tenha implementado políticas públicas de regularização para a categoria. Essa lacuna, segundo o procurador, resulta na imposição de restrições severas ao direito ao trabalho, afetando diretamente uma população já fragilizada.

O MPF enfatiza que essa população é formada, em grande parte, por pessoas negras, migrantes, refugiadas e trabalhadores em situação de vulnerabilidade social, que dependem dessa atividade para garantir sua subsistência. A ausência de um plano de inclusão e regularização, aliada a uma fiscalização rigorosa, pode empurrar essas pessoas para uma situação ainda mais precária, gerando um impacto social desproporcional.

A procuradoria reforça que o combate ao crime deve ser direcionado especificamente aos responsáveis pelas atividades ilícitas, e não utilizado como justificativa para restrições generalizadas ao exercício de uma atividade profissional reconhecida pela legislação. O Estado, segundo o MPF, tem o dever de construir políticas públicas capazes de garantir condições dignas de trabalho, em vez de tratar toda uma categoria profissional como suspeita.

A Visão da Prefeitura e a Operação Tolerância Zero

O programa Tolerância Zero teve início na manhã de quinta-feira (16), com a apreensão de mercadorias e uma forte reação dos ambulantes, que realizaram uma manifestação na orla de Copacabana, estendendo-se até o Leme, em frente ao Copacabana Palace. A operação tem como objetivo declarado combater a exploração ilegal do espaço público pelo crime organizado, visando desarticular redes que utilizam o comércio informal para atividades ilícitas.

O prefeito Eduardo Cavaliere defendeu a iniciativa, afirmando que “vender produto de origem ilegal ou alugar equipamento com origem criminosa é crime”. Ele enviou um recado claro: “A tolerância vai ser zero. Quando você não tem legalização, você não pode desempenhar nenhuma atividade econômica no espaço público”. Essa postura reflete a determinação da prefeitura em coibir o que considera irregularidades e a atuação de grupos criminosos na orla.

Para a execução do programa, um efetivo de 320 homens da Guarda Municipal, com apoio da Polícia Militar, foi dividido em dois turnos para o patrulhamento contínuo da orla da zona sul. A estratégia se baseia na ocupação territorial contínua, patrulhamento ostensivo e fiscalização integrada, com o uso de tecnologias de monitoramento para identificar e coibir atividades ilegais. A prefeitura informou que já foram identificados mais de mil pontos de venda explorados ilegalmente nas praias do Leme, Copacabana, Ipanema e Leblon.

O secretário municipal de Ordem Pública, Marcus Belchior, detalhou as ações: “Teremos fiscalizações diárias com patrulhamento ostensivo, pontos com controle de acesso, apreensões de mercadorias irregulares e combate aos depósitos clandestinos”. A Agência Brasil entrou em contato com a prefeitura do Rio de Janeiro e está aberta a manifestações sobre o caso.

Desdobramentos e o Futuro da Gestão das Praias

A ação do MPF na Justiça Federal abre um novo capítulo na discussão sobre a gestão do espaço público e o comércio ambulante no Rio de Janeiro. A decisão judicial poderá ter implicações significativas para a continuidade do programa Tolerância Zero e para a forma como a cidade lida com a informalidade e a inclusão social nas áreas turísticas.

O pedido do MPF por um planejamento conjunto entre União e município aponta para a necessidade de uma abordagem mais integrada e dialogada, que vá além da fiscalização punitiva. A expectativa é que o debate judicial force a criação de políticas públicas mais abrangentes, que considerem tanto a segurança e o ordenamento quanto os direitos e a dignidade dos trabalhadores ambulantes. O desfecho dessa ação será crucial para definir o futuro da orla carioca e o modelo de gestão a ser adotado.

Para continuar acompanhando os desdobramentos dessa importante notícia e ter acesso a informações relevantes e contextualizadas sobre este e outros temas que impactam a sua vida, fique ligado no Rádio Cachoeiro FM. Nosso compromisso é com a informação de qualidade, oferecendo uma cobertura aprofundada e diversificada para você se manter sempre bem informado.

Leia mais

PUBLICIDADE