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Avanço da saúde no Amazonas: comunidades ribeirinhas veem fim de perdas trágicas

Avanço da saúde no Amazonas: comunidades ribeirinhas veem fim de perdas trágicas
© Lucas Bonny/FAS

No coração da Amazônia, onde rios sinuosos e a vasta floresta ditam o ritmo da vida, o acesso à saúde sempre foi um desafio monumental para comunidades ribeirinhas. Em Carauari, no interior do Amazonas, histórias de perdas trágicas, como a de Francisco Solivan Peres de Araújo, presidente da Associação dos Moradores Agroextrativistas da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Uacari (Amaru), eram uma triste realidade até poucas décadas atrás. Solivan perdeu a mãe aos dois anos, vítima de uma hemorragia durante o parto de sua irmã, em um tempo em que a distância para a cidade significava a ausência de qualquer socorro. Ele relembra as condições precárias do final da década de 80, quando “não tinha possibilidade nenhuma de chegar na cidade”.

A triste história de Solivan ecoa em muitos outros relatos pela região, onde perdas de vidas, sequelas permanentes e traumas profundos eram consequências diretas da imensa distância entre a zona rural e a zona urbana. Além da barreira geográfica, a falta de recursos financeiros para custear o deslocamento até a cidade, onde se concentrava a estrutura pública de saúde, agravava ainda mais a situação, transformando emergências médicas em verdadeiras sentenças.

O Desafio Geográfico de Carauari

Carauari é um município de proporções gigantescas, um dos maiores do Brasil, com uma área que ultrapassa 25,7 mil quilômetros quadrados – maior do que muitos países. Banhado pelo sinuoso Rio Juruá e cercado pela densa Floresta Amazônica, a locomoção de suas comunidades ribeirinhas até a sede do município, onde se encontram os serviços de saúde, pode levar horas ou até dias de viagem. O tempo de percurso varia drasticamente dependendo do tipo de embarcação e das condições do rio, que na época da seca, torna a navegação ainda mais lenta e desafiadora.

Uma expedição recente da Agência Brasil, realizada nos últimos dez dias, revelou a complexidade dessa realidade. A viagem para conhecer as comunidades da Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS Uacari) começou com um deslocamento de aproximadamente 35 horas de lancha expressa de Manaus até a cidade de Carauari. Dali, foram mais quatro horas até a comunidade de Bauana, e outras quatro horas para alcançar as comunidades na região de Campina. Durante essa jornada, a reportagem colheu inúmeros testemunhos de tragédias que, com políticas públicas de saúde mais eficazes, poderiam ter tido desfechos diferentes.

Marcas de uma Espera: Histórias que Persistem

Os relatos de mortes por falta de atendimento eram ainda mais comuns até os anos 90, antes da implementação de sistemas de resgate. Mesmo com as melhorias, a imensa distância ainda impõe desafios. Adriana da Silva e Silva, da comunidade de São José do Nachiqui, carrega as sequelas de uma picada de cobra sofrida em janeiro de 2019. Ela conta que o resgate demorou mais de 24 horas para chegar, e a falta de soro antiofídico imediato fez sua perna inchar a ponto de ficar irreconhecível. Para evitar a amputação, foram necessárias quatro cirurgias em Carauari, um esforço que salvou seu membro, mas deixou marcas permanentes.

“Às vezes, quando eu ando, eu perco o tato da perna. E se eu ficar muito tempo com a perna encolhida, eu tenho dificuldade para esticar e se eu ficar com ela esticada, eu tenho dificuldade para encolher. E ela incha muito”, desabafa Adriana, ilustrando as consequências de um atendimento tardio.

Outra história comovente é a de Raimundo Viana da Cunha, ex-morador da comunidade Mandioca e hoje colaborador do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Em 1994, seu irmão adoeceu gravemente. Naquela época, a assistência à saúde era mínima, e a dependência de “regatões” – comerciantes ambulantes que navegavam pelos rios – para o transporte de doentes era a única opção. “O meu irmão esperou uma semana doente sem ter nenhum barco passando. A gente não tinha condições próprias na época”, relata Raimundo.

Quando sua mãe finalmente conseguiu uma carona, a prioridade do regatão era a venda de mercadorias, fazendo com que a viagem até a cidade levasse mais uma semana. “O fato é que, depois de duas semanas, meu irmão foi atendido e não teve mais condição de fazer nada pela saúde dele – e ele veio a óbito”, lamenta Raimundo, que até hoje não sabe a causa da morte do irmão, que reclamava de dores na barriga. Essa situação era tão comum que, até 1997, muitas famílias foram forçadas a se mudar para a cidade em busca de melhores condições de atendimento.

Saúde Mais Próxima: Uma Nova Realidade para o Amazonas

A partir dos anos 90, um sistema de lanchas de resgate foi instalado pela prefeitura, marcando o início de uma mudança. O fortalecimento de organizações de base, a partir de 1997, também foi crucial para que as comunidades ribeirinhas começassem a reivindicar seus direitos e atrair um “olhar especial” para o Médio Juruá. Essas iniciativas foram fundamentais para reverter o cenário de calamidade e a “evacuação” de famílias que buscavam atendimento na zona urbana.

Para os moradores da região, a lição é clara: a proximidade do atendimento em saúde é um fator determinante para a vida. A instalação de postos de saúde mais próximos, como o de Bauana, visível na imagem, e a continuidade de projetos que levam atendimento médico às comunidades ribeirinhas do Amazonas, representam um avanço significativo. Eles não apenas oferecem esperança, mas também transformam a realidade, reduzindo as histórias de perdas e sequelas que por tanto tempo assombraram essas populações. A luta por uma saúde acessível e de qualidade continua, mas com a certeza de que cada passo em direção às comunidades é um passo em direção à vida.

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