Uma investigação conduzida pela organização Mercy For Animals (MFA) trouxe à tona uma prática comum, porém pouco conhecida pelo público, na indústria avícola brasileira: o descarte sistemático de pintinhos machos em incubatórios. Imagens obtidas em uma unidade de grande porte na Região Sul do país documentaram o que a organização classifica como trituração de cerca de 35 mil animais em um único dia. O nome da empresa envolvida não foi divulgado.
O procedimento ocorre poucas horas após o nascimento. Por não possuírem capacidade de postura e não apresentarem o perfil genético demandado pelo mercado de corte, os machos são separados das fêmeas e encaminhados a máquinas de maceração. Especialistas em bem-estar animal apontam que, além da morte precoce, o método pode causar sofrimento prolongado caso o óbito não seja instantâneo. A investigação também registrou o descarte de fêmeas que apresentavam deformidades ou nascimentos prematuros.
Tecnologia de sexagem in ovo como alternativa
O setor busca alternativas para mitigar o impacto ético dessa operação. A principal solução tecnológica disponível é a sexagem in ovo, que permite identificar o sexo do embrião ainda durante o período de incubação. Com essa técnica, os ovos contendo embriões machos são removidos antes da eclosão, eliminando a necessidade de eutanásia após o nascimento.
Embora países como França, Alemanha, Itália e Áustria já possuam legislações que restringem ou proíbem a trituração, no Brasil a adoção é incipiente. A primeira máquina com essa tecnologia foi instalada em julho de 2025, em Nova Granada, São Paulo, atendendo a uma demanda por produção de ovos com maior apelo ético. Contudo, o alto custo de implementação — que pode elevar o preço da ave em até 150% — ainda atua como uma barreira para a escala industrial.
Impacto financeiro e o papel do consumidor
A viabilidade econômica da transição tecnológica é o ponto central do debate entre produtores e defensores dos animais. Dados da organização Innovate Animal Ag sugerem que o custo adicional por ave, quando diluído ao longo do ciclo produtivo de uma galinha poedeira — que chega a produzir 350 ovos —, representaria um aumento de apenas alguns centavos por dúzia para o consumidor final. Empresas como Korin, Grupo Mantiqueira e Planalto Ovos já sinalizaram interesse em suspender a prática, desde que haja viabilidade operacional.
O comportamento do consumidor brasileiro parece favorecer essa mudança. Pesquisas indicam que 76% dos compradores concordam que a indústria deve buscar alternativas ao abate, e 79% demonstram disposição para adquirir ovos produzidos com a tecnologia de sexagem. A falta de transparência sobre os processos industriais é apontada por especialistas como o principal motivo para a baixa pressão social sobre o tema até o momento.
Tramitação legislativa e fiscalização
O debate sobre o descarte de pintinhos alcançou o Congresso Nacional através do Projeto de Lei 783/2024 e do PL 3034/2026. Enquanto o primeiro enfrenta resistência na Comissão de Agricultura devido a preocupações econômicas, o segundo ainda inicia sua tramitação. A Constituição Federal veda expressamente a crueldade contra animais, um argumento que a Mercy For Animals pretende levar ao Ministério Público para que a legalidade das práticas atuais seja reavaliada pelas autoridades competentes.
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