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Dermatite atópica: a doença que vai além da pele e afeta sono e autoestima

Dermatite atópica: a doença que vai além da pele e afeta sono e autoestima
© Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

A dermatite atópica é muito mais do que uma condição de pele. Trata-se de uma doença inflamatória crônica que, em suas manifestações mais severas, transcende o aspecto físico, impactando profundamente o sono, a saúde mental e a autoestima dos pacientes. A coceira intensa, sintoma principal, pode levar a feridas abertas que tornam a pele extremamente sensível, transformando o simples toque de um tecido ou da água em uma fonte de dor constante.

Essa realidade é vivenciada por milhares de pessoas, que precisam aprender a lidar com uma condição que afeta cada aspecto de suas vidas, desde as atividades mais básicas do dia a dia até a interação social. A complexidade da dermatite atópica exige uma abordagem que vá além do tratamento tópico, considerando o bem-estar integral do indivíduo.

A Luta Diária Contra a Dermatite Atópica: Relatos de Quem Vive com a Doença

A estudante de medicina Clara Emery, de 23 anos, conhece bem os desafios impostos pela dermatite atópica desde a infância. Ela relata episódios em que precisou de antibióticos para combater infecções nas feridas, que chegavam a deixar a pele em carne viva. A dor era tão intensa que atividades como deitar na cama, encostar no travesseiro ou tomar banho se tornavam momentos de grande sofrimento. “Tive muitas crises de choro por não saber o que fazer”, desabafa Clara, que convive com a doença desde que nasceu.

A doença se manifesta em regiões de dobras, como atrás dos joelhos, cotovelos e pescoço, mas em Clara, atinge também o rosto, ao redor dos olhos e nas mãos, áreas de maior fricção. Os gatilhos são variados, incluindo alimentos, fatores ambientais como sol, grama, suor, fungos e ácaros. Objetos de pelúcia, tapetes e pelos de animais também desencadeiam crises. “Eu sentia como se tivesse alergia ao mundo”, conta a estudante, que também percebe a influência do estresse na exacerbação das alergias em diferentes fases da vida.

O impacto social é outro ponto crítico. Clara relembra momentos de isolamento e preconceito na escola, onde, aos 10 anos, chegou a ser questionada se tinha hanseníase, sífilis ou HIV. “Havia muito preconceito”, lamenta. Atualmente, ela faz uso de um tratamento imunobiológico que controla as crises mais graves, proporcionando uma qualidade de vida que antes parecia inatingível. Embora o medicamento seja caro, custando mais de R$ 10 mil por caixa, o valor é coberto integralmente pelo seu plano de saúde.

O Peso Social e Psicológico da Dermatite Atópica

A dermatologista Rosana Lazzarini reforça que a dermatite atópica tem um impacto significativo na qualidade de vida. A coceira incessante compromete o sono, resultando em menor rendimento no trabalho e na escola. A especialista aponta que cerca de 40% das crianças diagnosticadas com a doença continuarão a conviver com ela na vida adulta. O estigma social é uma realidade, com as marcas visíveis no corpo frequentemente levando ao afastamento social e ao bullying, apesar de a doença não ser contagiosa.

“O impacto na vida da criança é grande. É uma doença crônica, há frequência de consultas, perda de aulas, afastamento social (deixa de brincar, de ir a festas) e internações que irão afetar o desenvolvimento psicossocial”, explica Lazzarini. Para combater o preconceito e informar a população, o dia 23 de setembro foi oficializado no Brasil como o Dia Nacional de Conscientização da Dermatite Atópica, por meio da Lei 14.916/24.

O presidente da Associação de Apoio à Dermatite Atópica (AADA), o dermatologista Roberto Takaoka, destaca que os pacientes frequentemente enfrentam preconceito devido ao desconhecimento geral, especialmente pela crença equivocada de que a doença é contagiosa. Ele ressalta que campanhas de conscientização são cruciais. Além disso, a dermatite atópica é comumente associada a distúrbios do sono, depressão e isolamento social.

Tratamentos, Custos e o Apoio Essencial na Dermatite Atópica

As famílias de pacientes com dermatite atópica frequentemente buscam soluções rápidas e milagrosas, sem compreender a natureza crônica da doença, que apresenta períodos de melhora e piora. Takaoka enfatiza que a condição é complexa e multifatorial, influenciada por aspectos físicos, emocionais e sociais. A AADA desempenha um papel fundamental ao promover a saúde dos portadores da doença por meio da arte, ciência e educação, oferecendo grupos de apoio para pacientes e familiares, além de materiais educativos e campanhas de conscientização.

A jornalista Rayane Lopes, de 34 anos, moradora do Recanto das Emas, no Distrito Federal, teve sua primeira crise de dermatite atópica aos 18 anos. Ela descreve que a doença se manifestou inicialmente por todo o corpo e, hoje, surge mais na barriga e entre os dedos das mãos. Rayane observa que as manchas e a coceira intensa são mais evidentes em períodos de grande estresse, como após o falecimento de uma pessoa próxima, quando seu corpo se encheu de feridas e manchas avermelhadas. Ela convive com cicatrizes e utiliza corticoides para aliviar as crises mais fortes.

Para o controle da doença, Rayane evita o uso de buchas durante o banho, uma medida simples que ajuda a mitigar a irritação da pele. A busca por tratamentos eficazes e acessíveis, aliada ao apoio psicológico e social, é uma constante para quem vive com a dermatite atópica, reforçando a importância de iniciativas como as da AADA e do Dia Nacional de Conscientização.

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