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Parceria nuclear dos EUA com Arábia Saudita expõe contradição na política externa

Parceria nuclear dos EUA com Arábia Saudita expõe contradição na política externa
© Frame/ Reuters/ Proibido reprodução

Um acordo de cooperação nuclear, anunciado pelos Estados Unidos e pela Arábia Saudita, que promete durar “décadas” e movimentar bilhões de dólares, tem gerado intenso debate e exposto uma notável contradição na política externa da Casa Branca em relação à questão nuclear. A parceria, cujos detalhes completos ainda não foram divulgados e aguarda análise do Congresso estadunidense, levanta sérias preocupações sobre a proliferação de armas atômicas e a estabilidade no Oriente Médio.

A principal fonte de controvérsia reside no fato de que o governo do então presidente Donald Trump firmou essa colaboração com a monarquia absolutista saudita, abrindo caminho para que o país enriqueça urânio, mesmo que alegadamente para fins pacíficos. Isso ocorre logo após Washington iniciar uma campanha rigorosa exigindo o fim do enriquecimento de urânio no Irã, apesar de Teerã consistentemente afirmar que seu programa não possui objetivos militares. Essa dualidade de critérios tem sido amplamente criticada por analistas e organizações internacionais.

Dilema da não proliferação: o acordo nuclear e o Irã

A política externa dos EUA, historicamente, tem se pautado pela não proliferação nuclear, exercendo pressão sobre diversos países para que abram mão de desenvolver armamentos atômicos ou programas de enriquecimento de urânio. No entanto, a aproximação com a Arábia Saudita, permitindo-lhe o acesso a tecnologia nuclear sensível, parece ir de encontro a essa postura, especialmente quando comparada à rigidez imposta ao Irã.

Após críticas de Israel, Donald Trump utilizou as redes sociais para condicionar a parceria nuclear à assinatura, pela Arábia Saudita, dos Acordos de Abraão. Essa exigência adicionou uma camada de incerteza sobre o futuro do acordo entre Washington e Riade. Os Acordos de Abraão, promovidos por Trump, visam normalizar as relações entre países árabes e Israel, independentemente da questão palestina. Contudo, os sauditas têm mantido a posição de que só assinariam o acordo com garantias concretas para a criação de um Estado palestino, uma condição rejeitada pelo governo de Benjamin Netanyahu.

A visão dos especialistas: falha no ‘escudo americano’ e riscos

Especialistas em relações internacionais têm analisado o acordo com ceticismo. O historiador da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Francisco Carlos Teixeira da Silva, avalia que a parceria expõe uma contradição flagrante na política nuclear dos EUA. Para ele, o movimento seria uma tentativa de Trump de reverter a perda de confiança de Riade na proteção que Washington ofereceria ao país árabe, especialmente após a guerra com o Irã.

“Isso é um reconhecimento da falência do ‘escudo americano’. Tudo isso se dá em meio a um bombardeio pesado do Irã contra a Arábia Saudita. Agora os EUA sugerem que os sauditas podem ter armas nucleares e, com isso, poderiam responder ao Irã com armas nucleares”, explicou Teixeira da Silva. Essa perspectiva sugere que o acordo, em vez de reforçar a segurança regional, poderia intensificar a corrida armamentista.

Inspeções e protocolos: a resistência saudita e alertas internacionais

Apesar das garantias do governo Trump de que a Arábia Saudita não desenvolveria armas nucleares, organizações que lutam contra a proliferação atômica alertam para a recusa da monarquia em assinar um “protocolo adicional” com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Esse protocolo permitiria inspeções-surpresa, cruciais para garantir a natureza pacífica de qualquer programa nuclear.

A Associação de Controle de Armas, uma organização não governamental dos EUA, argumenta que permitir à Arábia Saudita ignorar o protocolo adicional da AIEA enfraquece a posição de Washington nas negociações com Teerã. “Os líderes sauditas, por vezes, manifestaram o desejo de desenvolver um ciclo de combustível completo, desde a extração de urânio até o reprocessamento do combustível irradiado. Isso não é típico de países que estão apenas iniciando programas de energia nuclear”, afirmou a associação.

A entidade ressalta que “fechar um acordo com a Arábia Saudita antes de resolver a questão nuclear iraniana seria insensato e míope”. A preocupação é amplificada por declarações anteriores do príncipe herdeiro saudita, Mohammed bin Salman, que em 2018 afirmou que buscaria uma arma nuclear caso o Irã tivesse acesso a uma, indicando uma possível escalada regional.

Um sinal alarmante para o Oriente Médio e a política externa dos EUA

O professor de relações internacionais da Universidade de Brasília (UnB), Roberto Goulart Menezes, reforça que, embora a Arábia Saudita tenha assinado o Acordo de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP), a parceria com os EUA envia um sinal contraditório e alarmante para o Oriente Médio. “É alarmante porque, embora haja um compromisso para enriquecer o urânio para fins pacíficos, o fato é que, na trajetória do programa nuclear da Arábia Saudita, pode haver outros interesses no futuro que sejam diferentes do ponto de partida. Isso aumenta as incertezas na região”, comentou Menezes.

O especialista da UnB lembra que, desde a Guerra Fria, os EUA têm se esforçado para convencer países a abrirem mão de desenvolver armamentos nucleares ou programas nucleares militares. O Brasil, o México e a África do Sul são exemplos de nações que assinaram o TNP sob a pressão de Washington. A flexibilização dessa postura com a Arábia Saudita pode minar a credibilidade dos EUA como defensor da não proliferação global.

A complexidade do cenário geopolítico no Oriente Médio, somada às incertezas sobre o programa nuclear saudita e as condições impostas pelos Acordos de Abraão, torna este um dos temas mais delicados da política externa contemporânea. O Rádio Cachoeiro FM continua acompanhando de perto os desdobramentos dessa e de outras notícias relevantes, oferecendo a você informação de qualidade, atualizada e contextualizada. Mantenha-se conectado ao nosso portal para análises aprofundadas e a cobertura completa dos fatos que impactam o Brasil e o mundo.

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