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Brasil busca soberania digital em IA com aliança chinesa e desafios internos

Brasil busca soberania digital em IA com aliança chinesa e desafios internos
Signing ceremony of the agreement establishing the World Artificial Intelligence Cooperation Organization. Shanghai, 16 July 2026. Foto: Divulgação

O Brasil deu um passo significativo na arena global da inteligência artificial (IA) ao se juntar a 28 outras nações na assinatura do documento que estabelece a Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial (Waico). Anunciada em julho de 2026, com sede em Xangai, na China, a iniciativa visa construir uma governança global da IA baseada em modelos de código aberto, promovendo a apropriação tecnológica por empresas e organizações de todo o mundo. Essa adesão posiciona o país em um debate crucial sobre o futuro da tecnologia, em um cenário geopolítico cada vez mais polarizado.

A participação brasileira na Waico surge em um momento de intensa disputa por influência no desenvolvimento e controle da IA. Enquanto a China propõe um modelo colaborativo e aberto, os Estados Unidos avançam com a Pax Silica, uma estratégia que prioriza a segurança das cadeias de suprimento de semicondutores, minerais críticos e energia, reunindo apenas “aliados confiáveis”. Para o Brasil, essa aliança com a China representa uma oportunidade estratégica para fortalecer sua própria soberania digital, embora especialistas alertem para a necessidade de um robusto investimento interno em infraestrutura e pesquisa.

A busca pela soberania digital em inteligência artificial

Especialistas em Inteligência Artificial consultados pela Agência Brasil sublinham que a Waico pode ser um divisor de águas para o desenvolvimento da soberania digital brasileira. No entanto, o caminho não é simples e exige que o país “faça o dever de casa”, como ressaltou Sérgio Amadeu da Silveira, professor da Universidade Federal do ABC (UFABC). Ele argumenta que o Brasil possui um potencial inegável, com grandes centros de pesquisa universitários que poucas nações no mundo podem igualar, colocando-o em uma posição privilegiada para o avanço da IA.

Amadeu enfatiza a importância de o Brasil trilhar um caminho de desenvolvimento mais autônomo e independente, aproveitando a aliança com a China, mas sem abrir mão de sua própria estratégia. O sociólogo alerta que, sem o desenvolvimento de uma infraestrutura crítica em IA e a soberania sobre os dados gerados no país, a cooperação internacional pode não se traduzir em absorção efetiva de conhecimento. Ele exemplifica a situação ao mencionar que, mesmo com um investimento de R$ 10 milhões em projetos de IA em uma universidade, metade desse valor poderia ser consumida apenas com contratos de armazenamento em nuvem de grandes empresas de tecnologia, sejam elas ocidentais ou até mesmo chinesas como a Huawei.

“Eu não tenho infraestrutura disponível aqui que me permita que os pesquisadores, as universidades e o próprio governo, em vez de sustentar big tech estrangeira, gaste recursos criando expertise e infraestrutura no nosso país para processamento e armazenamento de dados, que nos dê um poder computacional grande”, explicou Amadeu, destacando a lacuna de capacidade nacional.

O papel estratégico do Brasil na geopolítica da IA

Ettore Arpini, especialista em governança de IA e fundador da organização Plures, que se dedica à formação de profissionais na área, reforça a capacidade do Brasil de se tornar um ator crucial na geopolítica da IA. Segundo Arpini, o país tem a habilidade de transitar entre as diferentes iniciativas globais, tanto as lideradas pela China quanto as ocidentais, o que lhe confere uma posição única e estratégica.

Para Arpini, é fundamental que o Brasil compreenda a IA não apenas como uma questão setorial ou de regulamentação de mercado. Ele a enxerga como uma vantagem geopolítica e econômica, e, mais importante, como uma alavanca de prosperidade para a população brasileira, uma oportunidade que surge poucas vezes na história de uma nação. A visão do governo brasileiro tem sido a de não se atrelar a nenhum modelo específico, mantendo diálogo com todas as iniciativas que possam contribuir para a soberania digital do país.

Em fóruns multilaterais, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem sido um defensor vocal de uma governança intergovernamental da IA, onde todos os Estados tenham voz e assento. Ele argumenta que a tecnologia não pode se tornar um privilégio de poucos países ou um instrumento de manipulação nas mãos de bilionários. Essa perspectiva é compartilhada pelo secretário-geral das Nações Unidas (ONU), António Guterres, que, presente no lançamento da Waico, descreveu a IA como a “maior oportunidade da humanidade no século XXI”, mas também como um de seus maiores riscos, enfatizando que “todas as nações precisam de um lugar à mesa”.

Pax Silica: a visão americana e o contraponto à soberania

A abordagem chinesa e a defesa brasileira de uma governança inclusiva contrastam diretamente com a visão dos Estados Unidos, que veem a IA como um pilar fundamental da estrutura de poder global. A iniciativa Pax Silica, liderada por Washington, busca controlar as cadeias de suprimento de minerais críticos, dados e energia essenciais para o funcionamento da IA, concentrando o poder tecnológico em seus “aliados confiáveis”.

A perspectiva americana foi explicitada em um artigo de Jacob Helberg, subsecretário de Estado dos EUA para Assuntos Econômicos. Helberg critica abertamente o conceito de “soberania digital” defendido por organizações como a ONU e por países como o Brasil. Ele descreve a ideia de que cada nação possua sua própria infraestrutura de IA – computadores, dados e modelos desenvolvidos e controlados internamente – como “sedutora, mas contraproducente”.

Para Helberg, os países teriam mais benefícios ao aproveitar as infraestruturas já estabelecidas pelas grandes empresas de tecnologia, as big techs. Ele argumenta que seguir o caminho da soberania digital levaria a uma “mediocridade sincronizada”, onde as nações estariam “reconstruindo heroicamente a inovação do ano passado, enquanto a própria inovação avança sem eles”. Na visão americana, enquanto outros se dedicam a replicar o presente, as empresas dos EUA estariam “inventando o futuro”.

Este cenário de visões divergentes sobre a governança da IA destaca a complexidade do tema e a importância das escolhas estratégicas para nações como o Brasil. A decisão de se aliar à Waico reflete um posicionamento em busca de um futuro mais equitativo no desenvolvimento tecnológico, mas exige um compromisso contínuo com a construção de capacidades internas. Para acompanhar de perto os desdobramentos dessa e de outras notícias que moldam nosso mundo, continue ligado no Rádio Cachoeiro FM. Nosso portal multitemático está sempre comprometido em trazer informação relevante, atual e contextualizada para você.

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