A China tem intensificado esforços diplomáticos para conectar nações através da relação histórica e econômica das populações com os grandes cursos d’água do planeta. Recentemente, a cidade de Chongqing, um dos principais polos industriais chineses com 32 milhões de habitantes, sediou a 4ª edição do Fórum da Civilização do Rio Yangtzé. O evento reuniu especialistas, jornalistas e artistas de quase 20 países, incluindo representantes do Brasil, Egito, Sérvia e Austrália, para debater a importância dos rios como berços da humanidade.
O encontro integra a estratégia da Iniciativa para a Civilização Global, lançada pelo presidente Xi Jinping em março de 2023. O objetivo central é promover valores comuns e cooperação internacional, utilizando a experiência chinesa com o rio Yangtzé — espinha dorsal da economia local e um dos pilares da civilização milenar do país — como ponto de partida para um intercâmbio de saberes sobre gestão hídrica, arqueologia e sustentabilidade.
Conexão entre civilizações e o papel dos grandes rios
Durante o fórum, estudiosos chineses defenderam a necessidade de ampliar a historiografia ocidental, que, segundo eles, historicamente privilegiou o Nilo e a Mesopotâmia como centros de gravidade das civilizações fluviais. Pesquisas arqueológicas recentes na região do Yangtzé indicam que a agricultura do arroz na área remonta a quase 10 mil anos, evidenciando uma complexidade social que busca maior reconhecimento global.
O intercâmbio técnico também foi um ponto alto da programação. Especialistas egípcios, por exemplo, compartilharam métodos de medição das águas do Nilo, fundamentais para a antecipação de secas e enchentes. Alaa Hussein Mahmoud Menshawy, professor da Universidade de Luxor, ressaltou que a colaboração é vital frente aos desafios contemporâneos. “Poluição, mudanças climáticas, crescimento populacional e transformações ambientais podem afetar os rios e as comunidades que dependem deles”, afirmou.
Desafios ambientais e a transição para a civilização ecológica
O rápido crescimento econômico da China nas últimas cinco décadas, embora tenha transformado o país em uma potência industrial, cobrou um preço ambiental elevado. O rio Yangtzé sofreu impactos severos, culminando na extinção do golfinho Baiji em 2006. Reconhecendo esses erros, o Estado chinês tem adotado uma nova postura, incorporando a “civilização ecológica” como prioridade nacional desde 2012 e, posteriormente, como política constitucional em 2018.
A pesquisadora brasileira Vera Maria Ferreira da Silva, do Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (INPA), esteve presente no evento e observou a mudança de paradigma. Segundo ela, o governo chinês compreendeu que a restauração ambiental tornou-se uma questão de sobrevivência. Atualmente, medidas como a proibição da pesca profissional por dez anos e projetos de recuperação de fauna e flora tentam reverter o desequilíbrio ecológico causado pelo desenvolvimento desenfreado.
A estratégia da rota econômica e o futuro das águas
Além da preservação, o fórum destacou a Rota Econômica do Rio Yangtzé, que conecta o interior chinês ao porto de Xangai ao longo de 6,3 mil quilômetros. A ideia é conciliar a “teoria das duas montanhas” — que equilibra desenvolvimento econômico e prioridade ecológica — para garantir que a exploração dos recursos hídricos não comprometa o futuro das próximas gerações.
O debate sobre a gestão de rios como o Amazonas, o Nilo e o Yangtzé reforça a importância da cooperação internacional para enfrentar crises climáticas globais. A troca de experiências entre nações que dependem desses gigantes fluviais é vista como um caminho necessário para a construção de modelos de desenvolvimento mais resilientes e sustentáveis.
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