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Etanol brasileiro: tarifa dos EUA tem impacto limitado e impulsiona busca por mercados alternativos

Etanol brasileiro: tarifa dos EUA tem impacto limitado e impulsiona busca por mercados alternativos
© Arquivo/26.07.2012/Tânia Rêgo/Agência Brasil

A recente imposição de uma tarifa adicional de 25% pelos Estados Unidos sobre o etanol brasileiro, embora seja uma medida que gera atenção no cenário comercial internacional, deve provocar impactos pontuais e limitados sobre o conjunto da economia do Brasil. Essa é a avaliação de especialistas, que apontam um forte componente político na decisão norte-americana, em um momento em que o mercado dos EUA já representa uma parcela menor das exportações brasileiras do biocombustível.

A medida, que começou a valer em julho de 2026, afeta diretamente algumas empresas exportadoras, mas a resiliência do setor e a estratégia de diversificação de mercados do Brasil tendem a mitigar um impacto mais amplo. A maior parte das vendas externas de etanol do país já é direcionada a outros compradores internacionais, mesmo com os Estados Unidos sendo, atualmente, o segundo principal destino do produto.

Tarifa dos EUA: um movimento com forte componente político

Especialistas ouvidos pela Agência Brasil indicam que a decisão dos Estados Unidos possui um caráter predominantemente político, distanciando-se de justificativas puramente comerciais. A participação do mercado norte-americano nas exportações brasileiras de etanol já vinha em declínio há anos, tornando o peso dessa tarifa menos crítico para a balança comercial brasileira como um todo.

O professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Luiz Carlos Delorme Prado, contextualiza a situação: “A participação dos EUA nas exportações brasileiras já vinha diminuindo há anos. Antes mesmo do tarifaço, esse peso já era relativamente pequeno”. Ele acrescenta que, embora a medida seja “algo ruim, em especial para alguns setores específicos”, ela “não representa nenhuma tragédia para a economia do país”. A probabilidade de reversão dessa tendência de tarifação é considerada baixa.

A tarifação também recebeu críticas das entidades representativas do setor, como a União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica), que defende os produtores de etanol de cana e de milho. Essa reação setorial sublinha a percepção de que a medida é desfavorável, mas não catastrófica, dada a capacidade de adaptação e a busca por novos horizontes comerciais.

Etanol brasileiro: a estratégia de diversificação de mercados

Diante do cenário de imprevisibilidade nas políticas comerciais dos EUA, especialmente sob a administração de Donald Trump, a busca por mercados alternativos e o apoio do poder público a essa estratégia tornam-se cada vez mais essenciais. O professor Delorme Prado ressalta que, apesar de ninguém desejar perder um mercado como o norte-americano, as circunstâncias atuais o tornaram “muito problemático porque não oferece previsibilidade nem racionalidade”.

Investir especificamente para atender o mercado estadunidense é, hoje, uma aposta de alto risco. Por isso, o Brasil tem se voltado para parcerias comerciais mais estáveis e confiáveis. “Não há garantias de que seja possível estabelecer políticas comerciais bilaterais minimamente previsíveis com os EUA porque o que move o tarifaço não são ganhos de natureza comercial, mas a agenda política do governo deles para a América Latina”, argumentou o professor da UFRJ.

Em 2025, o Brasil exportou cerca de 1,6 milhão de metros cúbicos de etanol, gerando uma receita de quase US$ 1 bilhão. Desse total, os embarques para o mercado norte-americano somaram aproximadamente 253 mil metros cúbicos, equivalentes a US$ 163 milhões. Isso significa que os Estados Unidos responderam por menos de 16% do volume exportado e cerca de 17,5% da receita total, confirmando que mais de 84% do volume e 82,5% do faturamento tiveram outros destinos internacionais.

A força do etanol brasileiro: competitividade e inovação

A competitividade do Brasil no setor sucroalcooleiro é uma vantagem estrutural que facilita a busca por novos mercados. O país se destaca por ter um custo de produção mais baixo e uma produtividade por hectare superior, impulsionado por fatores como clima e solo favoráveis, conforme explica Luis Augusto Barbosa Cortez, professor da Faculdade de Engenharia Agrícola da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenador do Centro de Ciência para o Desenvolvimento do Etanol (CCD Etanol).

Enquanto os EUA produzem etanol majoritariamente a partir do milho, o Brasil, tradicionalmente produtor de etanol de cana-de-açúcar, tem expandido significativamente a produção a partir do milho. A tendência é que a participação do milho na produção nacional continue a crescer, impulsionada pela possibilidade de uma segunda safra no clima brasileiro, algo em menor escala nos EUA devido a invernos rigorosos. “O produtor brasileiro pode colher soja até o mês de maio e, na sequência, plantar milho para colheita em outubro. Dessa forma, uma mesma área pode produzir duas safras por ano”, detalhou Cortez.

Atualmente, cerca de 75% do etanol brasileiro vem da cana-de-açúcar e 25% do milho. A expectativa é que a participação do milho alcance 30% da produção nacional até 2030 e possa se igualar à da cana por volta de 2050. Esse crescimento é impulsionado pela integração entre agricultura e pecuária, onde o farelo do milho serve como insumo para alimentação animal, gerando ganhos ambientais e econômicos. Além disso, o Brasil se beneficia de um processo industrial mais eficiente, com parte da energia das usinas gerada a partir da biomassa do bagaço da cana e do milho, reduzindo custos em comparação com os EUA, que precisam comprar energia para parte do processo.

A produtividade também é um diferencial: o Brasil produz aproximadamente 7 mil litros de etanol por hectare de cana, enquanto nos Estados Unidos a produtividade máxima é de 5 mil litros por hectare de milho.

Alegações dos EUA: uma análise da retórica política

O professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), Niels Soendergaard, reforça que as medidas tarifárias dos EUA contra o Brasil possuem um “caráter eminentemente político”, apesar de apresentarem uma “maquiagem técnica”. Segundo ele, a administração Trump tem utilizado a pressão econômica externa para tentar influenciar desdobramentos políticos na América Latina, distorcendo fatos e argumentos técnicos.

Os Estados Unidos justificam as tarifas com base em uma investigação do Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR), que alega que certas práticas brasileiras seriam discriminatórias ou prejudicariam a economia norte-americana. Entre os pontos questionados estão o acesso ao mercado brasileiro de etanol, regras de comércio digital, sistemas de pagamento eletrônico, propriedade intelectual, medidas anticorrupção e desmatamento ilegal. O governo brasileiro, por sua vez, rejeita essas alegações, afirmando que a investigação não tem respaldo nas normas multilaterais do comércio internacional.

“O Brasil cumpre as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC), e a queda das importações de etanol dos EUA deve-se ao aumento da produção de etanol baseado em milho no Brasil”, argumenta Soendergaard, destacando a falta de confiabilidade nas afirmações do governo Trump. Para ele, é perceptível que a administração faça afirmações “parciais ou inteiramente divorciadas dos fatos concretos” para pressionar outros países.

Diante desse cenário complexo, o Brasil continua a fortalecer sua posição como um dos maiores e mais eficientes produtores de biocombustíveis do mundo, adaptando-se às dinâmicas do comércio global e buscando novas oportunidades. Para se manter atualizado sobre os desdobramentos da economia e do comércio internacional, bem como outras notícias relevantes, continue acompanhando o Rádio Cachoeiro FM. Nosso portal oferece informação de qualidade, contextualizada e com a profundidade que você precisa para entender os fatos que impactam seu dia a dia.

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