A tarde de quarta-feira (21) foi marcada por protagonismo feminino nos gramados da Escola Municipal Juan Antonio Samaranch, situada no bairro de Santa Teresa, na região central do Rio de Janeiro. O campo de futebol da instituição ficou inteiramente dedicado a quatro times femininos em disputa, enquanto os garotos acompanharam as partidas diretamente da arquibancada. A iniciativa integrou a abertura oficial do programa Pioneiras nas Escolas, criado para aproximar novas gerações de atletas de nomes que construíram a história da modalidade no país.
Antes dos jogos, mais de 100 alunas lotaram o auditório da unidade escolar para uma roda de conversa interativa. Na ocasião, as estudantes puderam fazer perguntas, registrar o momento em fotografias e ouvir relatos de superação de ex-atletas que vestiram a camisa da seleção brasileira feminina em décadas passadas. O projeto busca fortalecer a autoestima das jovens e incentivar a prática esportiva nas redes públicas de ensino.
Histórias de superação contra o preconceito
O encontro proporcionou um resgate de memórias sobre as barreiras enfrentadas por pioneiras do esporte. Participaram do evento as ex-jogadoras Marisa Pires, Maria Lúcia Lima e Marilza Martins, amplamente conhecidas no meio esportivo pelos apelidos de Caju, Fia e Pelezinha. Elas detalharam às jovens os desafios superados em uma época em que o cenário competitivo era escasso e hostil para as mulheres.
Fia, hoje com 62 anos, destacou que a paixão pela modalidade falava mais alto diante das barreiras sociais. A ex-atleta acumulou passagens marcantes pela seleção, onde permaneceu por cinco anos, conquistou três títulos continentais e disputou a primeira Copa do Mundo e a primeira olimpíada da categoria. Já a ex-zagueira Caju, de 60 anos, relembrou os episódios de hostilidade que ouviu dos torcedores nas arquibancadas, transformando as críticas em combustível para demonstrar a qualidade técnica das mulheres em campo.
O peso histórico da proibição do esporte
Um dos momentos que mais chamou a atenção das estudantes durante a atividade foi a revelação sobre o período em que a modalidade foi proibida para o público feminino no Brasil. Entre 1941 e 1979, o esporte esteve legalmente vetado às garotas por meio do Decreto-Lei 3.199, que restringia a prática de atividades consideradas incompatíveis com a natureza feminina.
A revelação gerou surpresa entre as alunas, como a estudante Nicoly Melo, de 12 anos. O veto foi revogado apenas em 1979, com a regulamentação oficial ocorrendo em 1983. Esse cenário tardio fez com que a primeira seleção brasileira disputasse uma competição oficial de caráter experimental somente em 1988, na China, abrindo caminho para a expansão internacional do futebol de mulheres.
Parceria pedagógica e foco nos estudos
A coordenação do projeto Pioneiras nas Escolas é realizada por Duda Luizelli, ex-jogadora com passagens pela seleção e por clubes de destaque internacional, como o Internacional, de Porto Alegre, além do Milan e do Verona, na Itália. Durante sua fala às alunas, ela enfatizou que a dedicação aos livros deve caminhar lado a lado com a paixão pelo esporte.
Segundo a bicampeã sul-americana, a trajetória nos gramados costuma ser breve devido ao desgaste físico natural da profissão. Por essa razão, a busca pelo conhecimento acadêmico é apresentada como uma ferramenta indispensável para garantir a estabilidade profissional após o encerramento da carreira esportiva.
Esporte como base educacional
A realização do evento na rede pública conta com o apoio da Secretaria Municipal de Educação (SME) do Rio de Janeiro. A escola Juan Antonio Samaranch funciona desde 2012 sob o modelo de Ginásio Experimental Olímpico (GEO), uma diretriz da prefeitura que integra a rotina pedagógica em tempo integral ao incentivo sistemático a diferentes modalidades esportivas.
Atendendo aproximadamente 600 estudantes na faixa etária de 11 a 15 anos, a instituição de ensino dispõe de uma estrutura voltada para o desenvolvimento físico e disciplinar, contando com o suporte técnico de treinadores especializados em 19 esportes distintos, o que amplia as perspectivas educacionais e profissionais dos jovens da região.
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