Um estudo aprofundado realizado pelo Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), vinculado à Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da Universidade de São Paulo (FEA/USP), trouxe à luz um cenário preocupante para a economia nacional. A pesquisa aponta que as plataformas de apostas, popularmente conhecidas como bets, exerceram um efeito significativo de redução no consumo e na atividade econômica do Brasil, retirando entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões do Produto Interno Bruto (PIB) no ano de 2025. Esse montante representa uma parcela considerável, variando de 0,9% a 1,1% do PIB total do país.
A magnitude desse impacto é um dos pontos mais alarmantes destacados pelos pesquisadores. Para contextualizar, a perda econômica estimada equivale a algo entre 40% e 50% de todo o crescimento projetado para a economia em 2025. Além disso, o valor é aproximadamente cinco vezes maior do que as estimativas do impacto de um eventual aumento de tarifas americanas sobre o PIB brasileiro. Mesmo ao considerar a criação de empregos diretos e indiretos associados ao setor de apostas, o panorama macroeconômico negativo permanece praticamente inalterado, sublinhando a gravidade do fenômeno.
O Custo Bilionário para a Atividade Econômica Nacional
A análise do Made/USP detalha como a migração de recursos para as plataformas de apostas afeta diretamente o poder de compra das famílias e, consequentemente, a demanda por bens e serviços essenciais. Ao invés de circular na economia real, impulsionando setores produtivos e gerando valor agregado, uma parcela substancial do dinheiro dos consumidores é direcionada para as bets. Essa dinâmica cria um vácuo no consumo, desacelerando a produção e o investimento em diversas cadeias produtivas, desde o comércio varejista até a indústria.
A pesquisa ressalta que o problema transcende a esfera individual do apostador, transformando-se em uma questão macroeconômica com amplas repercussões. A redução da demanda agregada, impulsionada pela diminuição do consumo das famílias, tem um efeito cascata que se espalha por todo o tecido econômico, impactando a geração de empregos, a inovação e o desenvolvimento sustentável. Esse desvio de capital representa um freio no potencial de crescimento do país, comprometendo a capacidade de recuperação e expansão da economia brasileira.
Perdas Fiscais e o Desafio para as Contas Públicas
Além do impacto direto no PIB e no consumo, o estudo estima que a redução na atividade econômica provocada pelas apostas online resultaria em uma perda de arrecadação fiscal para o Estado que varia entre R$ 31,1 bilhões e R$ 54,8 bilhões. Embora as plataformas de apostas gerem uma arrecadação direta, estimada em cerca de R$ 9 bilhões, o efeito líquido sobre as contas públicas ainda seria profundamente negativo, com um déficit que poderia chegar a R$ 46 bilhões.
Para ilustrar a dimensão dessa perda, os pesquisadores comparam o valor com o orçamento da saúde pública. O montante negativo corresponde a algo entre 10% e 20% de todo o orçamento destinado à saúde pública no estado de São Paulo em 2025. Isso significa que, apesar da receita gerada pelas bets, o custo indireto para a sociedade, manifestado na menor capacidade de investimento em serviços essenciais como saúde e educação, é significativamente maior, evidenciando um desequilíbrio preocupante nas prioridades fiscais e sociais.
Aumento do Endividamento e a Concentração de Renda
A pesquisa também lança luz sobre o papel das apostas no aumento do endividamento das famílias. Ao considerar que parte das apostas pode ter sido financiada por crédito, o estudo levanta a hipótese de que a transferência líquida de R$ 62,5 bilhões para as plataformas poderia corresponder a cerca de 14% do aumento total do endividamento das pessoas físicas em 2025, estimado em R$ 450 bilhões. Essa é uma preocupação latente, especialmente em um contexto de alta taxa de juros e vulnerabilidade econômica para muitas famílias brasileiras.
Outro ponto crítico abordado é o efeito negativo na distribuição de renda. O estudo aponta que a transferência de dinheiro das famílias para as bets pode ter aumentado a concentração de renda para o 1% mais rico da população, em uma margem que varia de 0,5% a 2,1%. Em um país já marcado por uma das maiores desigualdades sociais do mundo, esse fenômeno agrava ainda mais a disparidade, canalizando recursos de uma base ampla de consumidores para um grupo restrito que se beneficia dos lucros das casas de aposta. Os pesquisadores enfatizam que, mesmo na estimativa mais conservadora, o impacto na concentração de renda é significativo.
O Contexto das Apostas Online no Brasil e Seus Desafios
O cenário das apostas online no Brasil é complexo e multifacetado. Nos últimos anos, o país tem visto uma explosão na popularidade e no volume de operações das plataformas de bets, impulsionada pela facilidade de acesso e pela intensa publicidade. Paralelamente, o governo tem avançado na regulamentação do setor, buscando estabelecer um marco legal que organize a atividade, garanta a segurança dos apostadores e gere arrecadação para os cofres públicos.
No entanto, a pesquisa da USP adiciona uma camada de complexidade a esse debate, ao demonstrar que os benefícios fiscais diretos podem ser superados pelos custos macroeconômicos e sociais. Questões como a prevenção ao vício em jogos, os riscos à saúde mental dos apostadores e a possibilidade de uso das plataformas para lavagem de dinheiro são temas que têm sido discutidos por profissionais de saúde e órgãos de justiça, conforme noticiado por diversos veículos. A decisão sobre o futuro das apostas no Brasil, portanto, exige uma análise aprofundada que considere não apenas o potencial de arrecadação, mas também os impactos abrangentes na economia, na sociedade e no bem-estar da população.
A pesquisa do Made/USP reforça a necessidade de um olhar crítico e estratégico sobre o fenômeno das apostas online. Ao retirar renda das famílias, especialmente as de menor poder aquisitivo, as bets podem aprofundar a desigualdade social, reduzir a demanda interna e comprometer o crescimento do PIB, além de impactar negativamente as contas públicas. É um lembrete de que as políticas públicas precisam equilibrar a liberdade econômica com a proteção social e a sustentabilidade fiscal.
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