A abordagem clínica para o acompanhamento da saúde da tireoide em gestantes passou por mudanças significativas no Brasil. Com base em estudos científicos recentes e na atualização de diretrizes internacionais, a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO) revisaram as recomendações para o diagnóstico e o manejo de disfunções hormonais durante a gravidez.
A principal alteração diz respeito ao uso da levotiroxina, o hormônio sintético utilizado para tratar o hipotireoidismo. De acordo com as novas orientações, gestantes que apresentam anticorpos contra a tireoide positivos (anti-TPO), mas que mantêm o funcionamento da glândula dentro dos níveis de normalidade, não devem mais receber medicação hormonal de forma preventiva. Pesquisas robustas indicaram que, nesses casos, o tratamento não reduz os riscos de abortamento ou de parto prematuro.
Foco no diagnóstico preciso e individualizado
O subcoordenador do Departamento de Tireoide da SBEM, Cleo Mesa Júnior, esclarece que a presença do anticorpo positivo é apenas um marcador de predisposição, e não uma doença instalada. “Se os níveis de TSH e T4 livre estão normais, a mulher é considerada eutireoidiana e não há benefício comprovado em usar levotiroxina apenas pela presença do anticorpo”, explica o especialista. A medida visa evitar a medicalização desnecessária, mantendo o foco na segurança da gestante e do feto.
Apesar da recomendação de não medicar preventivamente, o monitoramento clínico permanece rigoroso. Como a gestação altera o metabolismo, essas mulheres continuam sob observação, uma vez que o histórico de anticorpos positivos pode indicar um risco aumentado para o desenvolvimento de hipotireoidismo ao longo dos meses de gravidez. Para aquelas que já possuíam o diagnóstico de hipotireoidismo antes de engravidar, a conduta permanece inalterada: a dose habitual do hormônio deve ser aumentada em cerca de 30% logo após a confirmação da gestação.
Diferenças na estratégia de rastreamento
Enquanto novas diretrizes internacionais, como as da Associação Americana da Tireoide (ATA), sugerem um rastreamento seletivo — focado apenas em mulheres com fatores de risco como obesidade, idade materna avançada ou histórico de gestações anteriores —, o Brasil optou por manter a estratégia de rastreamento universal. Isso significa que o país continuará testando todas as gestantes desde o início do pré-natal.
A decisão brasileira fundamenta-se na necessidade de garantir que nenhuma paciente seja negligenciada. Segundo especialistas, o rastreamento seletivo pode falhar ao não identificar mulheres que apresentam alterações tireoidianas, mas que não se enquadram nos critérios de risco tradicionais. A prioridade é garantir o diagnóstico precoce, permitindo uma intervenção rápida quando ela for realmente necessária.
Manejo do hipotireoidismo subclínico
Outro ponto de atenção nas novas diretrizes é o tratamento do hipotireoidismo subclínico, caracterizado pela elevação do TSH com T4 livre normal. A orientação atual concentra a intervenção medicamentosa para níveis de TSH entre 4,0 e 10 mUI/L especificamente no primeiro trimestre, período em que o desenvolvimento fetal é altamente dependente dos hormônios maternos.
Caso a alteração seja detectada apenas no segundo ou terceiro trimestre, a recomendação é de acompanhamento sem a introdução imediata de levotiroxina, a menos que o TSH ultrapasse 10 mUI/L. A medida reflete o compromisso com a evidência científica, evitando tratamentos que não demonstram benefícios claros para o desfecho da gestação. Além disso, o Brasil mantém a recomendação de não aguardar períodos de espera para repetir exames em casos de alterações leves, priorizando a agilidade no início da terapia para não perder a janela de oportunidade de tratamento.
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