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Ataques no Mar Vermelho disparam petróleo acima de US$ 100

Ataques no Mar Vermelho disparam petróleo acima de US$ 100
© Reuters/Stringer/Proibida reprodução

O cenário geopolítico no Oriente Médio intensificou-se drasticamente, resultando em um impacto imediato e significativo no mercado global de energia. Nesta quinta-feira (23), o preço do barril de petróleo do tipo Brent superou a marca dos US$ 100, atingindo US$ 101, após uma escalada de ataques perpetrados pelos houthis, do Iêmen, contra navios da Arábia Saudita no estratégico Mar Vermelho. O aumento de 6% no valor do óleo reflete a crescente preocupação com a segurança das rotas marítimas e o abastecimento global de combustíveis, projetando sombras sobre a estabilidade econômica mundial.

A situação é um desdobramento direto da escalada da guerra na região, que viu o fechamento do Estreito de Bab el-Mandeb pelos houthis para embarcações sauditas. Este bloqueio não apenas agrava a já frágil situação do comércio internacional de combustíveis, mas também carrega o potencial de impulsionar a inflação em diversas economias ao redor do planeta, incluindo o Brasil, que sente os efeitos da volatilidade dos preços internacionais.

Escalada de tensões no Oriente Médio e rotas marítimas

A alta recente do petróleo ocorre em um contexto de cinco meses consecutivos de redução na oferta do produto, iniciada após a agressão dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã em 28 de fevereiro. Esse período de tensões prévias já havia levado ao fechamento do Estreito de Ormuz, uma via crucial por onde transita cerca de 20% do comércio marítimo de combustíveis globalmente, evidenciando a vulnerabilidade das cadeias de suprimentos.

Após um breve alívio, com a assinatura de um memorando de entendimento entre Irã e EUA em 17 de junho, o preço do barril de petróleo chegou a cair para US$ 70 em 1º de julho, o menor valor desde o início do conflito. Contudo, a trégua foi efêmera. Desde então, o valor do Brent disparou 42%, culminando na recente superação dos US$ 100, um reflexo direto da renovada instabilidade no Mar Vermelho.

A diretora técnica do Instituto de Estudos Estratégicos em Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep), Ticiana Álvares, ressaltou à Agência Brasil a relevância do fechamento do Mar Vermelho para a Arábia Saudita. Segundo ela, a alternativa que o país árabe vinha utilizando para escoar seu petróleo, via oleoduto até o Mar Vermelho, tornou-se inviável com o bloqueio de Bab el-Mandeb.

Impactos econômicos e a ameaça da inflação global

A Arábia Saudita, um dos maiores produtores globais de petróleo, enfrenta agora um desafio logístico que pode ter repercussões amplas. O bloqueio tende a afetar diretamente a oferta de petróleo para os Estados Unidos, que dependem do produto saudita para a produção de combustíveis como gasolina e diesel. Além disso, a Europa também pode ser severamente impactada, uma vez que grande parte do comércio asiático com o continente passa pelo Mar Vermelho, elevando os preços de frete e, consequentemente, o custo final dos produtos.

Estima-se que aproximadamente 10% do comércio marítimo de petróleo transite pelo Estreito de Bab el-Mandeb e pelo Mar Vermelho, conforme dados da Agência Internacional de Energia (AIE). Rodolfo Queiroz Laterza, diretor do Instituto de Altos Estudos de Geopolítica, Segurança e Conflitos (GSEC), alertou que a Arábia Saudita deverá registrar “perdas econômicas substanciais”. Ele enfatizou que a situação “vai agravar as cadeias logísticas de abastecimento no mundo e afetar inúmeras economias de vários países, principalmente aqueles dependentes da importação de petróleo e derivados”.

A nova fase do conflito e a atuação dos houthis

O professor de relações internacionais da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Minas, Danny Zahreddine, avalia que a guerra entre Irã e EUA entra em uma “nova etapa” com o fechamento da passagem de Bab el-Mandeb pelos houthis. A aliança entre os houthis e o Irã, em contraposição à Arábia Saudita, aliada histórica dos EUA e rival regional de Teerã, adiciona complexidade e volatilidade ao cenário.

Zahreddine destacou que o impacto se estende além da Arábia Saudita, afetando qualquer transporte que venha da Europa ou dos EUA e passe pelo Mar Vermelho e Canal de Suez, ou do transporte da China e outros países asiáticos para a Europa ou EUA. A rota via Bab el-Mandeb, conhecido como “Portal das Lágrimas”, é significativamente mais curta, tornando seu bloqueio um fator de choque na distribuição global.

Para o historiador Laterza, a guerra entre Israel e EUA contra o Irã reativou conflitos que estavam “congelados”, como a guerra no Iêmen. Os recentes ataques aéreos sauditas ao porto de Sanaa, no Iêmen, foram a resposta a esta firme ação dos houthis, que possuem comprovada capacidade militar no emprego de mísseis antinavio, mísseis balísticos, hipersônicos e drones kamikaze. A realidade, segundo Laterza, é “bastante desfavorável para a estabilidade dos preços mundiais dos hidrocarbonetos e os impasses estratégicos para os EUA com o envolvimento militar dos Houthis irá se agravar”.

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