A Agência Brasileira de Inteligência (Abin) elaborou um relatório reservado que aponta um risco significativo de influência ou interferência dos Estados Unidos nas próximas eleições brasileiras. O documento, encaminhado no final de agosto à Presidência da República, ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e ao Ministério da Justiça, também destaca uma tendência de escalada da pressão estadunidense sobre o Brasil. As informações, inicialmente divulgadas pela Folha de S.Paulo, foram confirmadas pela TV Brasil, da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), levantando sérias questões sobre a soberania e a estabilidade democrática do país.
Este alerta da Abin não surge isoladamente, mas em um contexto de crescente tensão diplomática e econômica entre as duas maiores economias das Américas. A inteligência brasileira classifica a possibilidade de interferência externa com um “nível de criticidade”, contextualizando o problema na reafirmação da hegemonia dos EUA na América Latina, uma prioridade do segundo governo do presidente norte-americano Donald Trump. O objetivo estratégico de Washington seria afastar rivais, como a China, de ativos estratégicos, riquezas naturais e infraestruturas vitais na região, o que coloca o Brasil, com sua vasta extensão territorial e recursos, em uma posição central nesse tabuleiro geopolítico.
A complexa dinâmica entre Lula e Trump
Apesar das crescentes tensões políticas e econômicas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem reiterado em eventos e entrevistas sua boa relação pessoal com Donald Trump, chegando a afirmar: “eu me dou muito bem com o Trump”. Essa aparente “química” teria surgido durante a Assembleia Geral da ONU, em setembro de 2025, após um breve encontro entre os dois líderes. Contudo, essa cordialidade pessoal não se traduziu em facilidade para a diplomacia ou para a economia brasileira, que enfrentam uma série de medidas restritivas impostas pelos Estados Unidos.
Desde abril de 2025, o Brasil tem sido alvo de tarifas de exportação para diversos produtos. Inicialmente, uma taxa de 10% foi aplicada a vários países, com justificativas puramente econômicas. No entanto, a partir de julho de 2025, o tom político passou a influenciar diretamente as medidas econômicas estadunidenses. Em 30 de julho, Donald Trump assinou uma Ordem Executiva (OE) que considerava o Brasil uma “ameaça incomum e extraordinária à segurança nacional dos EUA”, elevando o valor total da tarifa para 50%.
Tarifas e soberania nacional: os motivos por trás da pressão
As justificativas para o aumento das tarifas revelaram uma intromissão direta em questões internas brasileiras. Entre elas, destacava-se a atuação da Justiça brasileira ao limitar a operação de redes sociais como a Rumble, da Trump Media & Technology Group (TMTG), e o X (antigo Twitter), presidido por Elon Musk, ambos aliados de Donald Trump. O Supremo Tribunal Federal (STF) havia restringido essas plataformas devido à incitação de discursos de ódio e atentados à democracia, uma medida vista por Washington como uma afronta.
Outro ponto de atrito foi a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito. O governo dos Estados Unidos considerou a condenação uma perseguição política e intimidação a opositores do governo atual, ecoando a narrativa de Bolsonaro, que alegava ser alvo de perseguição no processo em que foi acusado de liderar uma tentativa de golpe de Estado no Brasil, pressionando comandantes militares para suspender o resultado das eleições presidenciais de outubro de 2022.
A Lei Magnitsky e o papel de Eduardo Bolsonaro
A pressão estadunidense foi além das tarifas, com a aplicação da Lei Magnitsky ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, relator dos processos da trama golpista, e sua esposa, Viviane Barci Moraes. Essa lei local permite o bloqueio de contas bancárias e ativos nos Estados Unidos, a proibição de transações com empresas americanas e o impedimento de entrada no país. Outros ministros do STF, como Luís Roberto Barroso, Edson Fachin, Cármen Lúcia, Flávio Dino, Cristiano Zanin e Gilmar Mendes, também tiveram seus vistos de entrada nos EUA cancelados na ocasião. No entanto, em dezembro de 2025, Moraes e sua esposa foram retirados da lista de sancionados pela Lei Magnitsky.
O deputado federal Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente, teve um papel controverso nesse cenário. Ele se mudou para os Estados Unidos, alegando ser um perseguido político, e celebrou publicamente as medidas econômicas e legais contra o Brasil após a aplicação da Lei Magnitsky. O parlamentar afirmou ter atuado junto às autoridades americanas para obter esses resultados, o que levou à sua denúncia por coação no curso do processo, sob a acusação de incentivar os EUA a decretarem tarifas para pressionar a Justiça brasileira a não condenar seu pai. Eduardo Bolsonaro foi condenado pelo STF em junho de 2026, perdendo seu mandato parlamentar por faltas às sessões da Câmara dos Deputados, e continua residindo nos Estados Unidos.
Reversões e a persistência das sobretaxas
Em fevereiro deste ano, Donald Trump sofreu um revés significativo em sua política tarifária. A Suprema Corte dos Estados Unidos derrubou as tarifas sobre produtos importados impostas globalmente por sua administração. A decisão judicial apontou que a imposição de tarifas interferia nos poderes do Congresso e violava a doutrina das questões importantes, um princípio jurídico fundamental. Consequentemente, o governo dos EUA foi obrigado a reembolsar bilhões de dólares arrecadados ilegalmente.
Apesar dessa limitação legal, a administração estadunidense ainda recorre a tarifas, inclusive contra o Brasil. Em 22 de julho, os EUA anunciaram uma sobretaxa de 25% que afetou 19% das exportações brasileiras para o país. A alegação, desta vez, foi a “adoção de práticas desleais” do Brasil, citando o uso do PIX, a regulação das redes sociais, o desmatamento ilegal e acordos preferenciais com México e Índia. Dias depois, uma nova tarifa de 12,5% foi aplicada, sob o argumento de que o Brasil não adota mecanismos eficazes para impedir a importação de mercadorias produzidas com trabalho forçado, uma acusação que o governo brasileiro classificou como “arbitrária e injustificada”, ressaltando seu reconhecimento internacional no combate ao trabalho escravo. Atualmente, parte dos produtos exportados para os EUA pode ser tributada em até 37,5%.
Além das questões econômicas e políticas, em maio deste ano, o Departamento de Estado dos EUA anunciou a designação das facções criminosas brasileiras Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas, adicionando mais uma camada de complexidade às relações Brasil-EUA.
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