O câncer de pulmão, uma doença frequentemente silenciosa em seus estágios iniciais, representa um desafio significativo para a saúde pública brasileira. Dados recentes revelam um cenário preocupante: a grande maioria dos diagnósticos realizados no Sistema Único de Saúde (SUS) ocorre quando a doença já está em fases avançadas, diminuindo drasticamente as chances de cura e impondo tratamentos mais complexos e custosos.
Essa realidade alarmante foi exposta por um estudo do Instituto Lado a Lado pela Vida, utilizando a plataforma Data Câncer 360º. A análise de milhares de diagnósticos de 2023 aponta para a urgência de uma revisão nas estratégias de detecção e prevenção da doença no país.
A Realidade Crua dos Números do Câncer de Pulmão no SUS
Em 2023, o Instituto Lado a Lado pela Vida analisou 14.145 diagnósticos de câncer de pulmão registrados no SUS. Dentre os casos que tiveram o estadiamento identificado – a avaliação da localização, extensão e disseminação do tumor –, um percentual chocante de 89,6%, o equivalente a 7.267 pacientes, já se encontrava em estágio 3 (2.015 pessoas) ou 4 (5.252 pessoas). Nesses estágios, as chances de cura são consideravelmente reduzidas.
Em contraste, apenas 698 pacientes, ou 10,4% do total, tiveram o tumor descoberto nas fases iniciais, sendo 307 no estágio 1 e 391 no estágio 2. Essa disparidade nos números sublinha a dificuldade em identificar a doença precocemente, um fator crucial para o sucesso do tratamento e a sobrevida dos pacientes.
O Silêncio da Doença e os Fatores de Risco
O oncologista Igor Morbeck, membro do Comitê Científico do Instituto Lado a Lado pela Vida, destaca que o avanço dos diagnósticos tardios é impulsionado, em grande parte, pela crescente exposição a fatores de risco. O tabagismo continua sendo a principal causa isolada, responsável por cerca de 85% dos casos. No entanto, outros elementos como sedentarismo, obesidade, má alimentação, poluição atmosférica, exposição ocupacional a agentes químicos, predisposição genética e doenças pulmonares crônicas prévias também contribuem significativamente para o risco de desenvolvimento da doença.
A natureza “silenciosa” do câncer de pulmão é um dos maiores obstáculos. Quando os sintomas se manifestam, eles são frequentemente inespecíficos e podem ser confundidos com outras condições respiratórias comuns, como tosse persistente, leve falta de ar, ou quadros que simulam infecções, bronquite, asma ou gripe. Essa similaridade leva muitas pessoas a protelarem a busca por um diagnóstico adequado, perdendo um tempo valioso para intervenção precoce.
Gargalos no Rastreamento e Políticas Públicas
Apesar da alta incidência e mortalidade do câncer de pulmão, o Brasil ainda não possui um programa nacional de rastreamento para prevenção e diagnóstico precoce da doença, ao contrário do que ocorre com outros tipos de câncer. Essa ausência é um dos “gargalos de acesso ao SUS” apontados por Igor Morbeck, que ressalta a importância de uma tomografia anual para pessoas com fatores de risco, como tabagistas e ex-tabagistas.
O médico enfatiza que a tomografia anual está disponível no SUS e é “totalmente possível fazer”. Contudo, a falta de um programa estruturado faz com que os pacientes só procurem os serviços de saúde quando os sintomas já são evidentes, e muitas vezes, o diagnóstico é feito de forma inadequada. Um simples raio X de tórax, por exemplo, é considerado totalmente insuficiente para uma avaliação eficaz do câncer de pulmão, levando a diagnósticos errados ou tardios e à piora do quadro clínico do paciente, conforme alertou em entrevista à Agência Brasil.
Além disso, o estudo do Instituto Lado a Lado pela Vida alerta para a qualidade da informação oncológica pública: em 40% dos casos analisados, não havia registro do tamanho do tumor ou da presença de metástase, informações cruciais para o planejamento do tratamento. Essa lacuna é atribuída à necessidade de exames de imagem mais detalhados, como a tomografia, que nem sempre são realizados ou registrados adequadamente.
O Impacto Humano e a Urgência da Prevenção
A história de Mônica Chain Montone, paciente do Instituto Lado a Lado pela Vida, ilustra a importância do diagnóstico precoce. Mônica enfrentou o câncer de pulmão em 2008 e uma recidiva em 2010, mas conseguiu a cura graças à detecção em fase inicial. Ela, que parou de fumar há 10 anos, defende veementemente a implementação de políticas públicas que permitam exames preventivos para tabagistas e ex-tabagistas, como a tomografia de baixa radiação que ela realiza anualmente.
O Instituto Nacional de Câncer (Inca) estima que, no triênio de 2026 a 2028, surgirão 35.380 novos casos de câncer de pulmão no Brasil a cada ano. Em 2024, a doença foi responsável pela morte de 32.555 pessoas no país. Esses números reforçam a necessidade urgente de campanhas de conscientização e programas de rastreamento eficazes, que possam identificar a doença antes que ela se torne incurável. A campanha Respire Agosto, criada pelo Instituto Lado a Lado pela Vida, busca justamente chamar a atenção para essa doença e a importância da prevenção.
A detecção precoce não apenas salva vidas, mas também representa uma economia significativa para o sistema de saúde, já que o tratamento de um câncer avançado é exponencialmente mais caro e complexo do que uma cirurgia em estágio inicial. É fundamental que a população, especialmente aqueles com fatores de risco, esteja ciente da importância de exames regulares e que as políticas públicas avancem para garantir o acesso a esses recursos. O Rádio Cachoeiro FM continuará acompanhando de perto os desdobramentos e as iniciativas para combater o câncer de pulmão no Brasil, oferecendo sempre informação relevante e contextualizada para nossos ouvintes e leitores.