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Apostas online impõem custo de R$ 30,6 bilhões anuais ao SUS para saúde mental

Apostas online impõem custo de R$ 30,6 bilhões anuais ao SUS para saúde mental
© Tomaz Silva/Agência Brasil

Um estudo recente do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) revela um cenário alarmante: o impacto financeiro gerado pelos danos à saúde mental provocados pelas apostas online no Sistema Único de Saúde (SUS) atinge a cifra de R$ 30,6 bilhões por ano. Este montante expressivo engloba despesas com tratamentos para depressão, ansiedade e os custos associados a casos de suicídio, evidenciando a crescente pressão sobre o sistema público de saúde brasileiro.

Apesar do vultoso custo para a saúde pública, apenas 1% do valor arrecadado pelas operadoras de apostas é destinado ao Ministério da Saúde para mitigar esses danos. A disparidade entre o impacto e o investimento em prevenção e tratamento sublinha a urgência de uma revisão das políticas de arrecadação e alocação de recursos neste setor em rápida expansão.

A Ascensão das Apostas Online e o Custo Humano

A proliferação das plataformas de apostas online no Brasil tem sido acompanhada por um aumento preocupante nos casos de dependência. Nos últimos cinco anos, o SUS registrou um crescimento de 140% na procura por atendimento relacionado à dependência de apostas e jogos de azar. Esse fenômeno não se restringe a uma faixa etária ou social específica, atingindo diversos perfis de cidadãos e sobrecarregando a Rede de Atenção Psicossocial.

Os custos não se limitam apenas aos tratamentos diretos. A dependência em jogos pode levar a uma série de problemas sociais e econômicos, como endividamento, desemprego e desestruturação familiar, que indiretamente também geram demandas para o sistema de saúde e assistência social. A agressiva publicidade das casas de apostas, muitas vezes com celebridades e influenciadores, contribui para a normalização e o estímulo ao jogo, tornando a prevenção ainda mais desafiadora.

Aumento da Procura por Ajuda e Resposta do SUS

Diante do cenário de alta demanda, o Ministério da Saúde tem buscado implementar soluções. Conforme Marcelo Kimati, diretor de Saúde Mental da pasta, foi lançado um serviço de teleatendimento focado em pessoas com problemas relacionados a jogos e apostas. Desde fevereiro deste ano, a iniciativa já registrou a procura de 20 mil pessoas que se cadastraram após realizarem um teste de avaliação.

A capacidade de atendimento foi significativamente ampliada, passando de 600 para até 100 mil teleatendimentos mensais, uma expansão viabilizada por uma parceria com a Agência Brasileira de Apoio à Gestão do SUS (AgSUS). Essa medida emergencial visa dar conta do volume crescente de pacientes que necessitam de suporte psicológico e tratamento para a dependência.

Outro indicativo da gravidade do problema vem da plataforma de autoexclusão, lançada pelo Ministério da Fazenda. Mais de 5 milhões de CPF’s foram bloqueados em sites de apostas online autorizados pelo governo federal. Dentre eles, mais de 1 milhão de usuários solicitaram a autoexclusão, com quase metade alegando problemas de saúde mental diretamente relacionados às apostas. Surpreendentemente, muitos dos afetados incluem beneficiários do Bolsa Família, do Benefício de Prestação Continuada (BPC) e pessoas em programas de renegociação de dívidas, o que acende um alerta sobre a vulnerabilidade socioeconômica dos apostadores.

Histórias de Superação e o Papel do Apoio

A luta contra o vício em apostas é uma realidade dolorosa para muitos brasileiros. Gustavo Pereira, um vendedor de 24 anos de Lages, Santa Catarina, é um exemplo. Após começar a apostar aos 18 e perder meio milhão de reais em seis anos, ele encontrou na plataforma de autoexclusão um caminho para a recuperação. Há cerca de dois meses sem apostar, Gustavo relata uma transformação profunda.

“Pode-se dizer que essa ferramenta salvou minha vida. Eu recuperei minha autoestima, recuperei a coragem de olhar nos olhos das pessoas, eu sou outra pessoa, o vício me transformou em outra coisa”, lembra Gustavo, que recomeçou a vida vendendo café nas ruas. Ele enfatiza que a batalha contra o vício é diária e exige acompanhamento contínuo.

Carla Xavier*, de 41 anos, também compartilha sua experiência como jogadora compulsiva, agora há mais de um ano longe do vício graças ao apoio da irmandade Jogadores Anônimos. “Eu não tinha mais controle de nada, eu queria sair do meu trabalho para jogar, eu queria ficar em casa para jogar, eu não queria fazer absolutamente mais nada, eu só queria jogar. Nem dormir eu queria, eu só queria jogar”, relata. Ela destaca a importância do apoio familiar para superar a dependência, que muitas vezes não é reconhecida como uma doença.

A irmandade Jogadores Anônimos (JA) oferece suporte vital para quem enfrenta o problema, e a organização JOG-Anon presta apoio específico a familiares e amigos de jogadores compulsivos, reconhecendo o impacto que a doença tem em todo o círculo social do indivíduo. “Quando a gente tem uma família que apoia, que entende o que a gente está passando, tudo fica mais fácil”, conclui Carla, ressaltando que o primeiro passo é reconhecer a compulsão como uma doença que exige ajuda profissional e comunitária.

O cenário das apostas online no Brasil apresenta um desafio complexo para a saúde pública e a sociedade como um todo. Os R$ 30,6 bilhões anuais representam não apenas um custo financeiro, mas o reflexo de uma crise de saúde mental que exige atenção e ações coordenadas. Acompanhe o Rádio Cachoeiro FM para mais informações relevantes, atualizadas e contextualizadas sobre este e outros temas que impactam a vida dos brasileiros, com o compromisso de trazer sempre uma apuração completa e de qualidade.

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