A economia global observa com cautela um marco histórico nos Estados Unidos. Pela primeira vez, a dívida pública do país ultrapassou a marca de US$ 40 trilhões, um patamar que reflete uma combinação complexa de decisões políticas, tensões geopolíticas e mudanças estruturais na arrecadação tributária. O montante, que dobrou desde 2017, coloca em evidência os desafios enfrentados pela maior potência econômica do mundo para equilibrar suas contas diante de um cenário de incertezas.
Fatores que impulsionam o endividamento recorde
Especialistas apontam que o crescimento acelerado da dívida não possui uma causa única, mas resulta de um conjunto de fatores interligados. Entre os principais motores estão a redução de impostos direcionada às camadas mais ricas da população, a manutenção de gastos militares na casa de US$ 1 trilhão e o impacto inflacionário decorrente de conflitos no Oriente Médio, que pressionam os preços dos combustíveis.
Além disso, a política tarifária adotada pelo governo de Donald Trump tem gerado instabilidade. A imposição de tarifas sobre importações, como observado no recente conflito comercial com o Canadá, eleva o chamado “risco Trump”. Esse ambiente de incerteza afeta diretamente o mercado financeiro, pressionando para cima as taxas de juros cobradas pelos títulos do Tesouro estadunidense, que se tornaram mais custosos para o governo.
A questão da solvência e o papel do Federal Reserve
Apesar do volume expressivo, economistas consultados pela Agência Brasil descartam, por ora, um risco iminente de insolvência. O professor Pedro Paulo Zahluth Bastos, do Instituto de Economia da Unicamp, explica que os Estados Unidos possuem uma vantagem estratégica: a emissão da própria moeda e o status do dólar como principal reserva global.
“Um governo assim não quebra contra a vontade. Se o mercado não quiser esses títulos ao preço corrente, o Federal Reserve (FED) pode comprá-los”, pontua Bastos. Como resposta imediata ao cenário atual, o Tesouro dos EUA anunciou a ampliação das operações de recompra de títulos no mercado, visando estabilizar a liquidez e evitar turbulências maiores.
Impactos da política tributária e desigualdade
O debate sobre a dívida também toca em feridas sociais profundas. A estratégia de reduzir a tributação sobre lucros e grandes fortunas tem sido apontada como um dos pilares que enfraquecem a arrecadação. Enquanto a receita sobre lucros caiu 23% no atual ano fiscal, os gastos com juros da dívida — que atingiram US$ 1,1 trilhão — acabam sendo revertidos, em grande parte, para o setor financeiro e as famílias mais ricas, que detêm a maioria dos títulos.
Pedro Faria, economista e doutor em história, ressalta que o problema não é apenas o gasto, mas a baixa arrecadação. Com uma carga tributária em torno de 25% do PIB, os EUA ficam abaixo da média da OCDE, que gira em torno de 34%. Essa disparidade, somada à política econômica errática, tem levado países como Brasil e China a repensarem a exposição aos títulos americanos, buscando maior diversificação em suas reservas.
O cenário fiscal americano continuará sendo um termômetro fundamental para a economia brasileira. A manutenção de juros elevados nos EUA tende a pressionar as taxas locais, exigindo atenção constante dos gestores de política econômica. Continue acompanhando o Rádio Cachoeiro FM para entender como os desdobramentos da economia internacional afetam o seu dia a dia, com o compromisso de levar até você informação precisa e contextualizada sobre os temas que movem o mundo.