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Flexibilização de armas nos EUA pode impulsionar facções criminosas no Brasil, alertam especialistas

Flexibilização de armas nos EUA pode impulsionar facções criminosas no Brasil, alertam especialistas
Fernando Freitas/Instituto Sou da Paz

Um pacote de 34 medidas propostas pelo governo de Donald Trump, nos Estados Unidos, visando a flexibilização das regras para a venda de armas, acende um alerta significativo para a segurança pública no Brasil. Especialistas consultados pela Agência Brasil expressam profunda preocupação, avaliando que tais ações podem facilitar sobremaneira o acesso a armamentos pesados por facções criminosas atuantes em território brasileiro, intensificando a violência e o poderio desses grupos.

As propostas, elaboradas pelo Departamento de Álcool, Tabaco, Armas de Fogo e Explosivos (ATF) dos EUA, incluem pontos críticos como a permissão para a compra de armas via correios, a redução do tempo para que vendedores mantenham registros de vendas e uma consulta mais branda sobre os antecedentes criminais dos compradores. Essas mudanças, se implementadas, representam um afrouxamento considerável na fiscalização, com potenciais repercussões globais e, em particular, na América Latina.

Medidas de Trump e o risco para a segurança brasileira

A preocupação dos especialistas brasileiros não é infundada. Os Estados Unidos já figuram como um dos principais fornecedores de armas para diversas regiões do mundo, muitas vezes alimentando conflitos e o crime organizado. Dados alarmantes demonstram essa realidade: no México, por exemplo, impressionantes 80% das armas apreendidas com cartéis de drogas têm origem no vizinho do Norte.

A situação se repete no Haiti, onde a Organização das Nações Unidas (ONU) estima que a maior parte do arsenal das gangues que controlam cerca de 80% da capital, Porto Príncipe, provém dos EUA. Um estudo da Universidade de Harvard, que compilou dados do ATF, revelou que, entre 2018 e 2022, 73% das armas de fogo apreendidas em países do Caribe eram de origem norte-americana.

Para o Brasil, o cenário é igualmente preocupante. Uma pesquisa publicada no Journal of Illicit Economies and Development, do Reino Unido, analisou a apreensão de 1,7 mil fuzis ilegais na Região Sudeste entre 2019 e 2023. O estudo apontou que 54% desses armamentos tinham origem nos Estados Unidos, colocando o país na primeira posição como fonte de fuzis ilegais, um recurso vital para a sustentação e expansão do crime organizado.

O fluxo de armas e os desafios na fiscalização

Bruno Langeani, consultor sênior do Instituto Sou da Paz e coautor do estudo, classificou as medidas de Trump como “bastante preocupantes”, destacando que elas “certamente facilitarão o acesso das facções brasileiras a essas armas”. Ele ressalta uma fragilidade já existente na regulamentação dos EUA: a venda de peças semiprontas sem controle ou registro, que se tornam um problema sério para o Brasil.

Essas armas desmontadas são particularmente problemáticas porque são mais fáceis de serem enviadas para o exterior, passando despercebidas pelas alfândegas. Langeani explica que é comum que essas peças sejam remetidas pelos correios, dificultando a detecção em raios-X, especialmente se não houver pessoal treinado para identificar as partes de uma arma completa.

Embora o Brasil seja o principal país de origem de armas de fogo de estilo militar apreendidas no Sudeste (considerando todas as armas, não apenas fuzis), os EUA vêm em segundo lugar, seguidos por Alemanha e Bélgica. A escassez de dados detalhados sobre a origem de armas ilegais apreendidas no Brasil, onde grande parte do armamento não é identificada, limita uma análise mais completa do cenário do tráfico.

Lobby armamentista e a contradição política

Robson Rodrigues, cientista social e pesquisador do Laboratório de Análise da Violência da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (LAV/Uerj), aponta para a forte influência do lobby de armas nos EUA, que atua incessantemente para reduzir a fiscalização sobre a venda de armamentos. Ele observa que “essas agendas de países estrangeiros que querem ampliar seus mercados encontram no Brasil um público interessante”, e que a ampliação da oferta e a facilidade de aquisição nos EUA inevitavelmente farão com que mais armas cheguem ao Brasil.

Em setembro de 2025, o governo Trump já havia revogado restrições para a exportação de armas de fogo para 36 países, incluindo nações vizinhas do Brasil com histórico de desvio de armas para o crime, como Paraguai, Colômbia, Suriname, Bolívia e Peru. O Departamento de Comércio dos EUA justificou a medida como uma forma de permitir que os fabricantes de armas norte-americanos “concorram em mercados estrangeiros, criando centenas de milhões de dólares por ano em oportunidades de exportação”. Langeani complementa que isso significa que os EUA estão “exportando com menos avaliações de risco, e isso traz mais chances de essa arma ser traficada”.

Rodrigues destaca uma “contradição” na política de Trump: enquanto o governo se propõe a combater cartéis na América Latina, ele liberaliza o acesso a armas que podem fortalecer esses mesmos grupos. Ele critica a falta de esforço conjunto para diminuir o acesso a armamentos e a lavagem de dinheiro, argumentando que o combate ao crime organizado deve ser multifacetado, atacando tanto a oferta (concentrada na América Latina) quanto a demanda (presente nos próprios EUA e Europa).

As organizações criminosas domésticas, tanto nos EUA quanto na Europa, muitas vezes lucram mais que os cartéis na América Latina, pois operam no varejo, aumentando suas margens de lucro. Para o estudioso, é fundamental combater o problema de todos os lados, e não apenas focar em uma frente enquanto se deixa a outra desprotegida. A flexibilização das regras de armas nos EUA, portanto, não é apenas uma questão interna, mas um fator que impacta diretamente a segurança e a estabilidade de nações como o Brasil, exigindo atenção e debate aprofundado sobre suas consequências.

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